Os jovens, a convergência de esquerda e o futuro da Europa

Os jovens, a convergência de esquerda e o futuro da Europa

Pedro AbrantesOs jovens cresceram num mundo radicalmente diferente daquele em que se formaram os seus pais e avós. Enfrentam hoje oportunidades e desafios também muito distintos. Muito mais escolarizada e informada que as antecessoras, esta geração tem sido criticada pelo seu suposto individualismo, hedonismo e fraca participação política.

Dados de inquéritos recentes mostram que, de facto, a abstenção, o voto nulo e o voto em branco alcançam entre os jovens a sua máxima expressão. No entanto, os jovens encontram-se sobre-representados noutras formas democráticas de participação política como são as manifestações, as petições e os boicotes. Além disso, relativamente às restantes gerações, votam menos nos grandes partidos (em Portugal, PS e PSD) e mais nos pequenos partidos. As críticas enunciadas anteriormente parecem infundadas. Os jovens revelam-se descrentes acerca dos processos eleitorais e, em particular, acerca da alternância entre os grandes aparelhos partidários, mas, na sua larga maioria, confiam e apoiam as instituições democráticas, buscando outras vias de participação e, também, outros partidos.

Existe uma diferença importante entre individualização e individualismo. Os jovens hoje reivindicam viver a sua própria vida, fazer as suas escolhas e, neste sentido, revelam-se avessos a cumprir acriticamente orientações, seja da família, da igreja ou do partido. Formados na era da informática e das redes sociais, sentem-se frequentemente estranhos no mundo das instituições do século XX, lamentam que estas sejam um atraso de vida. No entanto, os jovens não deixam de querer pertencer, participar, mudar o mundo, ajudar quem precisa. São filhos do estado-providência e não querem abdicar da segurança e justiça que este oferece. Assim, o elo dos cidadãos com as instituições não está perdido, mas tem que ser reinventado. São necessárias novas instituições, mais flexíveis, criativas, pragmáticas e sensíveis, para cumprir com as expectativas dos novos cidadãos.

Esta é a geração que já cresceu europeia, que já pensa e se move num mundo amplo e de fronteiras abertas. Na sua grande maioria encara esse facto como um dos grandes benefícios do seu tempo, uma enorme abertura de possíveis a desbravar. Querem mais Europa, uma unificação que não seja apenas económica, mas também laboral, ecológica, social, cultural e política. Esta é a geração que cresceu também com a noção de que os recursos não são infinitos e de que a ação dos homens está a levar à degradação do planeta.

Os estudos têm mostrado ainda que a principal preocupação destes jovens é conseguir emprego. Querem trabalhar em condições dignas e que lhes permitam deixar de ser um fardo para os seus pais e sustentar uma vida por si próprios. Foi isso que a modernidade lhes prometeu e, em muitos casos, ainda não cumpriu. Não conseguem compreender como tantos relatórios detalhados, tantos discursos enfatuados, tanta austeridade imposta, tantos milhões investidos não conseguem gerar emprego decente. E nesse ponto, tanto os governos nacionais como as comissões europeias têm falhado rotundamente.

A reivindicação ao trabalho em condições dignas é uma velha bandeira da esquerda. No entanto, muitos destes jovens não compreendem como os partidos que erguem a bandeira da esquerda ou do centro-esquerda se digladiam entre si, por questões secundárias, em vez de convergir na defesa de políticas locais, nacionais e europeias que defendam os valores fundamentais que proclamam – a justiça social, a liberdade, a educação, a igualdade de oportunidades, o trabalho digno para todos – contra a sua destruição, pela mão dos partidos de direita e dos grandes grupos empresariais.

Face ao cenário social e económico desastroso que têm vindo a denunciar, a recusa das direções partidárias dos partidos de esquerda em sequer buscar um entendimento surge como um atavismo ridículo que apenas perpetua o sistema atual e serve os interesses do grande capital. Com esta atitude, os partidos de esquerda – não os jovens – parecem acomodar-se a uma posição conservadora de protesto, abdicando do seu lugar (progressista) na História. Seria interessante, ao menos, que dessem oportunidade aos seus militantes e eleitores de pronunciar-se acerca de uma possível convergência de esquerda. Estou em crer que esta atitude dogmática de fechamento e puritanismo tem afastado muitos cidadãos, em particular os mais jovens.

O futuro de Portugal e da Europa não está escrito. E em grande medida, são os jovens de hoje que o irão escrever. Este foi também um dos motivos pelos quais se formou o LIVRE. Por acreditarmos que os jovens (aqueles que, com qualquer idade, permanecem jovens de espírito) merecem um novo espaço político em que possam participar de forma democrática na definição dos candidatos e das orientações estratégicas; um novo espaço político que defenda a cidadania europeia, o desenvolvimento sustentável, o trabalho digno, a justiça social, a convergência de esquerda…

 

Pedro Abrantes, candidato do LIVRE

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